Ter um aluno que frequentemente questiona regras, recusa atividades, discute diante de uma orientação ou reage de maneira intensa às frustrações pode transformar situações simples do cotidiano escolar em grandes conflitos.
Quando esse aluno possui diagnóstico de Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), compreender o que está por trás desses comportamentos é importante.
Mas compreender não significa permitir tudo. O desafio para o professor é encontrar um equilíbrio entre acolhimento, previsibilidade e limites claros.
O que é TOD?
O Transtorno Opositivo Desafiador é caracterizado por um padrão persistente de comportamento irritável, argumentativo ou desafiador que provoca prejuízos significativos na vida da criança ou do adolescente.
É importante fazer uma distinção: toda criança pode desobedecer, questionar uma regra, irritar-se ou desafiar um adulto ocasionalmente. Isso, isoladamente, não significa que ela tenha TOD.
No transtorno, esses comportamentos são persistentes, mais frequentes ou intensos do que seria esperado para a idade e podem prejudicar as relações familiares, sociais e escolares.Também cabe lembrar que o professor não realiza o diagnóstico de TOD.
Diante de comportamentos persistentes, seu papel é observar, registrar, comunicar a equipe escolar e contribuir com informações que possam auxiliar a família e os profissionais responsáveis pela avaliação da criança.
Na prática o que o professor pode fazer?
1. Evite transformar uma orientação em uma disputa de poder
Quando o aluno responde de maneira desafiadora, existe uma tendência natural de o adulto aumentar o tom de voz ou insistir imediatamente na ordem.
O problema é que a situação pode rapidamente se transformar em uma disputa sobre quem vai “vencer”.
Sempre que possível, dê a orientação de maneira objetiva, mantenha um tom de voz tranquilo e evite discussões prolongadas diante da turma.
Por exemplo, em vez de:
“Quantas vezes eu preciso mandar você guardar esse material?”
Pode ser mais produtivo dizer:
“Agora é hora de guardar o material. Quando terminar, começaremos a próxima atividade.”
Ser tranquilo não significa abrir mão da regra.
2. Estabeleça poucas regras, mas seja consistente
Um ambiente extremamente punitivo pode aumentar os conflitos. Por outro lado, uma sala em que as regras mudam constantemente também pode dificultar a autorregulação.
As regras precisam ser:
poucas;
simples;
conhecidas pelos alunos;
aplicadas de maneira consistente;
acompanhadas de consequências previsíveis.
O aluno precisa saber antecipadamente o que se espera dele.
3. Antecipe situações que costumam gerar conflitos
Observe quando os comportamentos desafiadores aparecem. É durante atividades difíceis? Quando precisa interromper algo de que gosta? Quando recebe uma correção? Quando precisa esperar? Quando é contrariado diante dos colegas?
Essa observação é importante porque o comportamento não acontece no vazio. Identificar o que costuma acontecer antes e depois dele pode ajudar a escola a compreender sua função e planejar intervenções mais eficientes.
4. Ofereça escolhas quando elas forem possíveis
Dar alguma possibilidade de escolha pode diminuir situações de confronto sem retirar a autoridade do professor. Em vez de:
“Faça essa atividade agora.”
Pode-se dizer:
“Você prefere começar pelas questões de leitura ou pelas questões de escrita?”
A atividade continua sendo necessária. O que muda é que o aluno recebe algum grau de autonomia sobre como realizá-la.
Mas atenção: não ofereça uma escolha que realmente não existe.
5. Valorize os comportamentos adequados
Um erro comum é conversar longamente com o aluno quando ele apresenta um comportamento inadequado e praticamente ignorá-lo quando está trabalhando adequadamente.
Procure inverter essa lógica.
“Percebi que você ficou irritado, mas conseguiu continuar a atividade.”
“Você não concordou comigo, mas explicou o que queria sem gritar. Muito bom.”
“Hoje você começou a atividade sem precisar de vários lembretes.”
O reforço positivo é uma estratégia importante nas intervenções comportamentais.
6. Corrija, que possível, de maneira reservada
Uma repreensão pública pode fazer com que o aluno se preocupe mais em preservar sua imagem diante dos colegas do que em resolver o problema.
Quando a situação permitir, aproxime-se e converse de maneira discreta.Isso não significa esconder comportamentos inadequados, mas evitar transformar a correção em um espetáculo para a turma.
7. Ensine maneiras adequadas de discordar
O objetivo não deve ser formar uma criança que nunca questione um adulto. Ela precisa aprender como discordar adequadamente. Frases como:
“Eu não concordo porque...”
“Posso explicar o que aconteceu?”
“Posso terminar isso primeiro?”
Podem ser ensinadas e praticadas.Autorregulação e habilidades sociais também precisam ser aprendidas.
8. Registre os episódios mais importantes
Quando os comportamentos são frequentes, registros objetivos ajudam muito. Anote:
o que aconteceu antes;
qual foi o comportamento;
como os adultos reagiram;
o que aconteceu depois;
duração e frequência, quando forem relevantes.
Evite registros como “o aluno estava impossível”.
Prefira:
“Após ser solicitado a interromper o desenho e iniciar a atividade de Matemática, recusou a atividade, elevou o tom de voz e permaneceu aproximadamente dez minutos sem realizá-la.”
Informações objetivas ajudam a escola, a família e os profissionais que acompanham a criança.
O que geralmente não ajuda?
Gritar mais alto para mostrar autoridade, ameaçar com punições que não serão cumpridas, ironizar o aluno, discutir diante dos colegas, atribuir todo comportamento ao diagnóstico ou retirar todas as regras porque a criança possui TOD dificilmente resolverá o problema.
Outro equívoco é interpretar automaticamente cada comportamento como uma provocação pessoal ao professor.
O comportamento precisa ser corrigido quando necessário, mas o aluno não deve ser reduzido ao seu diagnóstico.
TOD não significa ausência de limites?
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.A existência de um transtorno ajuda a compreender determinados comportamentos, mas não elimina a necessidade de ensinar limites e convivência social.
A escola precisa proteger tanto o aluno com TOD quanto os demais estudantes e profissionais. Comportamentos agressivos ou que coloquem alguém em risco precisam ser tratados conforme os protocolos da instituição, independentemente do diagnóstico.
Inclusão não significa ausência de regras. Significa pensar em estratégias para que o aluno consiga progressivamente compreender e respeitar essas regras.
O professor não precisa resolver nada sozinho
As evidências disponíveis apontam para a importância de intervenções que envolvam diferentes ambientes da vida da criança.
Dependendo do caso, podem participar desse processo: família, professor, equipe gestora, profissionais da educação especial e profissionais de saúde que acompanham o estudante.
O CDC destaca que, para crianças em idade escolar e adolescentes com transtornos disruptivos do comportamento, abordagens envolvendo criança, família e escola são frequentemente utilizadas.
A American Academy of Child and Adolescent Psychiatry também aponta intervenções familiares, desenvolvimento de habilidades de resolução de problemas e participação da escola entre as estratégias utilizadas no tratamento.
Uma revisão publicada por Barker e de Lugt (2022), que analisou 26 estudos relacionados a intervenções para comportamentos característicos do TOD em sala de aula, identificou três grupos importantes de estratégias: análise funcional do comportamento, contingências de grupo e automonitoramento.
Além disso, uma meta-análise de 19 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 18 mil crianças, investigou programas comportamentais realizados no contexto da escola, reforçando a relevância de intervenções estruturadas no ambiente escolar para comportamentos disruptivos. Para guardar
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Diante de um comportamento desafiador, talvez a pergunta mais útil não seja:
“Como faço esse aluno me obedecer?” Mas:
“O que está desencadeando esse comportamento e o que posso ensinar para que ele consiga reagir de outra maneira?”
O professor continua sendo o adulto responsável por estabelecer os limites da sala de aula.
A diferença está em fazer isso com clareza, consistência, previsibilidade e sem transformar cada conflito em uma batalha pessoal.
Referências para aprofundamento
BARKER, C.; DE LUGT, J. A review of evidence based practices to support students with oppositional defiant disorder in classroom settings. International Journal of Special Education, 2022.VEENMAN, B.; LUMAN, M.; OOSTERLAAN, J. Efficacy of behavioral classroom programs in primary school: a meta-analysis focusing on randomized controlled trials. PLOS ONE, 2018.CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Behavior or Conduct Problems in Children; Treating Children's Mental Health with Therapy.AMERICAN ACADEMY OF CHILD AND ADOLESCENT PSYCHIATRY (AACAP). Oppositional Defiant Disorder Resource Center.Aviso: Este conteúdo possui caráter educativo e não substitui avaliação ou orientação de profissionais de saúde.
