Criar momentos prazerosos, escolher livros adequados e permitir que a criança participe das histórias são algumas das estratégias que ajudam a aproximá-la do universo da leitura desde cedo.
Incentivar a leitura na Educação Infantil vai muito além de ensinar letras ou preparar a criança para a alfabetização. Nessa fase, o contato com livros, histórias, ilustrações e diferentes formas de linguagem pode despertar curiosidade, imaginação e interesse pelo mundo da escrita.
Uma criança ainda não precisa saber ler convencionalmente para participar de uma experiência de leitura. Ela pode observar as imagens, antecipar acontecimentos, reconhecer personagens, recontar partes da história e construir suas próprias interpretações.
Por isso, família e escola têm um papel importante na criação de experiências positivas com os livros. A própria Secretaria Municipal de Educação de São Paulo destaca que a leitura compartilhada contribui para ampliar o repertório das crianças e fortalecer vínculos, ressaltando também a importância da participação das famílias na formação de leitores.
Mas como transformar a leitura em algo realmente interessante para os pequenos?
1. Crie uma rotina de leitura
Não é necessário esperar uma atividade especial para apresentar um livro às crianças. Quando a leitura passa a fazer parte da rotina, o contato com as histórias se torna mais natural.
Na escola, o professor pode reservar alguns minutos diariamente para ler uma história. Em casa, a família pode escolher um momento tranquilo do dia, como antes de dormir ou após o banho.
Mais importante do que realizar uma leitura longa é criar certa regularidade.Também é interessante permitir que, em alguns dias, a própria criança escolha o livro que será lido.
Essa pequena decisão ajuda a transformá-la em participante do momento de leitura.
Sugestão prática: crie a “Hora da História”. Escolha um horário ou momento da rotina e faça dele um pequeno ritual: organizar o espaço, escolher o livro, observar a capa e só então começar a leitura.
2. Deixe os livros ao alcance das crianças
Imagine uma sala cheia de livros interessantes, mas todos guardados em uma prateleira alta. Para a criança, aqueles livros praticamente não fazem parte do ambiente.
Sempre que possível, disponibilize alguns exemplares em uma altura acessível. Uma pequena estante, caixas organizadoras ou um cantinho da leitura já podem cumprir essa função.
O objetivo é permitir que a criança tenha autonomia para pegar um livro, folhear, observar as imagens e devolvê-lo ao lugar.
E não há problema se ela quiser olhar várias vezes o mesmo livro. Para o adulto, pode parecer repetitivo. Para a criança, a repetição permite perceber detalhes, lembrar acontecimentos e desenvolver familiaridade com aquela narrativa.
3. Transforme a leitura em uma conversa
Uma das maneiras de tornar a história mais interessante é deixar de tratar a leitura como uma atividade em que somente o adulto fala e a criança escuta.
Antes de começar, mostre a capa e pergunte:
“Sobre o que você acha que será essa história?”
Durante a leitura, outras perguntas simples podem ser feitas:
“O que você acha que vai acontecer agora?”
“Por que o personagem fez isso?”
“Você faria a mesma coisa?”
“Onde você acha que eles estão?”
Ao final, a criança pode contar qual personagem mais gostou, desenhar sua cena preferida ou tentar recontar a história com suas próprias palavras.
Um cuidado, porém, é importante: não transforme cada livro em uma prova de interpretação.Não é necessário interromper a história a todo instante para verificar se a criança entendeu.
As perguntas devem estimular curiosidade e conversa, e não retirar o prazer da leitura.
4. Explore as ilustrações
Na Educação Infantil, as imagens também contam histórias.Antes mesmo de dominar a leitura convencional, a criança consegue observar personagens, cenários, expressões e acontecimentos representados nas ilustrações.
Experimente abrir uma página e perguntar: “O que está acontecendo aqui?” Depois, deixe a criança explicar.Outra possibilidade é observar algumas ilustrações antes da leitura e tentar descobrir coletivamente o que acontecerá na história.
Depois da leitura, vocês podem comparar as hipóteses com os acontecimentos do livro.Essa estratégia mostra à criança que ler não significa apenas decodificar palavras: também envolve observar, imaginar, levantar hipóteses e construir sentidos.
5. Leve a história para além do livro
A leitura não precisa terminar quando chegamos à última página. Uma boa história pode se transformar em desenho, brincadeira, dramatização, conversa ou produção artística.
Depois de uma história sobre animais, por exemplo, as crianças podem imitar os personagens. Depois de um conto, podem representar uma cena.
Também podem desenhar outro final ou imaginar um novo personagem. Outra atividade divertida é o “final diferente”.
Pergunte:“E se a história tivesse terminado de outro jeito?”As respostas podem ser surpreendentes.O professor pode registrar no quadro as ideias apresentadas pelas crianças e depois ler o novo final criado coletivamente.
Dessa maneira, o livro deixa de ser apenas algo que a criança escuta e passa a ser ponto de partida para outras experiências de linguagem e imaginação.
Uma atividade simples para experimentar. Uma proposta que pode ser realizada tanto na escola quanto em casa é a Sacola da Leitura.
Separe uma sacola ou caixa e coloque dentro dela alguns livros adequados à faixa etária.Cada criança escolhe um livro para explorar com a família.
Depois, ao retornar, pode contar para os colegas algo sobre aquela experiência. Para crianças pequenas, não é necessário produzir um relatório escrito.
Elas podem fazer um desenho da parte preferida, escolher o personagem de que mais gostaram ou simplesmente contar oralmente o que lembram.
Assim, a experiência de leitura circula entre escola, criança e família. O que evitar ao incentivar a leitura? Tão importante quanto saber o que fazer é perceber algumas atitudes que podem afastar a criança dos livros.
Evite utilizar a leitura como castigo, exigir silêncio absoluto durante todas as experiências com livros ou fazer perguntas sobre cada detalhe da história apenas para verificar se a criança prestou atenção.
Também não é necessário transformar toda leitura em uma ficha ou atividade escrita. Às vezes, ler simplesmente pelo prazer de descobrir uma história já é uma excelente atividade pedagógica.
O adulto também é um exemplo de leitor. Crianças observam muito o comportamento dos adultos. Quando veem professores e familiares manuseando livros, demonstrando curiosidade por histórias e conversando sobre aquilo que leram, começam a perceber a leitura como uma prática que faz parte da vida cotidiana.
Por isso, além de dizer “vamos ler”, vale demonstrar entusiasmo:
“Olha esse livro que encontrei!”
“Essa capa me deixou curioso.”
“Vamos descobrir o que acontece nessa história?
”São pequenas atitudes, mas que ajudam a associar o livro a momentos de descoberta e afeto.Incentivar a leitura é criar boas experiências.
Não existe uma fórmula única para formar leitores. O caminho começa oferecendo oportunidades para que a criança tenha contato com livros, faça escolhas, escute histórias, observe imagens, faça perguntas, imagine possibilidades e compartilhe suas descobertas.
Na Educação Infantil, talvez uma das conquistas mais importantes não seja a quantidade de livros lidos, mas o nascimento daquela curiosidade que faz a criança olhar para um livro e perguntar:
“Você lê essa história para mim?”Quando isso acontece, já existe algo muito importante sendo construído: o desejo de ler.
